Dor e Solidariedade

Dor e Solidariedade

*Por Carlos Alberto Barcellos

A dor da perda não se substitui. Ensina que podemos ser solidários na mesma. Esta dor revela que a perda de filhos é intransferível. Perder esposas nos torna viúvos. Quando perdemos pais nos tornamos órfãos. Perder filhos no dicionário deveria ser sinônimo de sacanagem. A lei da vida deveria proibir filhos de partirem antes dos pais. É complicado e difícil escrever nesta hora.

“Por que vocês estão chorando? Continuem as conversas, sigam rindo as mesmas bobagens que nos tornava tão próximos. Sigo amando vocês do lugar onde estou. Lembrem das brincadeiras, dos afagos e guardem tudo isso no coração. Estamos para sempre unidos numa saudade que se traduza na construção dos projetos que um dia sonhei. Neste tempo de passagem era preciso cumprir este tempo. Continuarei sendo o filho amado, o amigo desejado, o mano de todas as horas e aquele que, de onde estou, estarei vendo as conquistas de todos os que amei”. As palavras não servem de bálsamo. Ensinam a difícil e sublime lição de transformar dor em fontes de esperança. Somos todos cúmplices desta luta.

Cada vida ceifada será traduzida em vidas defendidas. Cada nome estará a nos dizer que há uma luta insana a ser travada. Vida desprotegida nas desculpas e escapes de quem tem a obrigação de assumir a verdade que gerou tanta dor. Eles, poderes constituídos, seguirão fazendo este jogo nefasto de jogar a culpa uns sobre os outros. O andar debaixo desta pirâmide não pode se calar. Santa Maria acordará, daqui a pouco, deste pesadelo. Acordar não significa silenciar sobre a impunidade. A memória da dor pode vir a cair no esquecimento. A sociedade civil que somos todos nós, não possui o direito de calar. O Diretório Central de Estudantes da UFSM e demais entidades onde estudavam estes jovens possuem o papel da relevante vigilância. Se somos conhecidos como a nação do jeitinho e do jogo de empurra, quem sabe a nós esteja reservado, finalmente, em dizer de uma forma permanente: Basta!

Poderes constituídos, brigada e donos da boate Kiss tiram o corpo fora e jogam as culpas uns sobre os outros. Daqui a pouco alguém dirá que estes jovens foram para a “câmera de gás” de uma forma deliberada e intencional. Falta pouco para que a tragédia narrada seja culpa do acaso ou da fatalidade, algo já manifestado pelo prefeito de Santa Maria.

Se amamos verdadeiramente aqueles que se foram, despojemo-nos do jogo político da desculpa pronta que não engana a sociedade civil. A juventude de Santa Maria possui um papel relevante aqui. Igrejas, centros comunitários, escolas e famílias possuem uma tarefa em não aceitar a passividade do calar. Movimentos estudantis e jovens organizados criem instâncias organizativas na cidade. Façam valer a força de uma juventude atenta e solidária. Ironicamente, Santa Maria e todos nós, carregamos uma dor em tempos de uma Campanha da Fraternidade que logo chegará cujo tema é juventude.

Somente a solidariedade pode amenizar toda a dor da perda. Façamos isto com os recursos e a força organizativa que possuirmos. Fácil é abraçar a alegria. Sublime é estender as mãos dos passantes com dor. Eles nos darão a força e ensinarão a caminho a seguir. Façamos por eles e pelos que aqui estão. Será que aprendemos o respeito pela vida? 



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3 comentários

  1. Eliete /

    Achei maravilhosa, é preciso sairmos do discurso que incutiram em nossas cabeça que este é o pais da impunidade, será sim até o momento que nós população dissermos chegar. somos maioria e temos força.
    Nada que falarmos ou fizermos vai amenizar a dor a dor destas família, hoje nos choca, amanhã a tristeza será apenas das família, é preciso não deixarmos essa tragédia acir no esquecimento.

  2. Ana Lúcia Martins /

    O texto reascende a tristeza que senti pela perda de todos esses jovens, como educadora, já perdi muitos alunos, doença, acidentes, absurdos e você ali, sentindo-se impotente para combater tanta dor.
    Causam-e vergonha a forma como o prefeito de Santa Maria se refere à tragédia como fatalidade. Ele não perdeu um filho ou filha…continuará dormindo o sono da tranquilidade, enquanto 240 mães e pai jamais conseguirão ser totalmente felizes outra vez. BASTA DE IMPUNIDADE , BRASIL!

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