O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem? Parte 2

29/Apr/11 O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem? Parte 2

*Por Branca Jurema Ponce

Conhecimento como estratégia

À escola cabe também papel essencial no processo de formação. Não se trata, por óbvio, apenas de instruir os jovens em determinadas habilidades, nem de levá-los a se apropriarem de um acervo de conhecimentos, mas – nesta concepção – de instaurar e amadurecer o próprio pensar, base da construção de sua autonomia pessoal, aqui compreendida como um direito a ser conquistado por todo ser humano de se autogovernar, tendo como parâmetro a alteridade, o respeito ao semelhante.

O conhecimento é compreendido como uma estratégia da existência e não constitui uma esfera isolada das demais coordenadas da vida.

Aulas pesadas, com conteúdos eminentemente teóricos, e desvinculadas da realidade do jovem, ou, por outro lado, um ensino solto, sem objetivos claros, em que se chama “reflexão” a conversas intermináveis, que não trazem em seu bojo a preocupação com a superação do conhecimento gerado pelo senso comum, não são adequados. São caminhos que, embora aparentemente opostos, conduzem ao mesmo perigoso fim: um jovem não preparado, sem condições de assumir-se em todas as suas dimensões.

A leitura da história humana nos revela que o modo humano de ser e estar no mundo nunca pressupôs uma realidade pronta, pelo contrário, sempre incluiu a idéia do devir. A humanidade viveu e vive um constante processo de construção e, para isso, tem de se preparar. Eis a razão de ser da formação, que se faz pela educação, tanto informal quanto formal, escolarizada. O conhecimento é mediador desse processo, por isso é estratégia de existência.

Para que as novas gerações sejam inseridas no mundo, elas precisam ser formadas para debater a sua vida em sociedade; para criar melhores alternativas de viver/conviver; para fazer também o imprevisível; para buscar o conhecimento autonomamente; para atuar no mundo do trabalho; e para, por meio de um constante processo reflexivo, construir-se acreditando em si mesmas. O currículo, as práticas didáticas e o convívio escolar são mediações necessárias à realização dessa formação, cujas palavras de ordem são reflexão e diálogo. Não há um nem outro sem os conhecimentos e os sujeitos envolvidos, que são fundamentais.

Apesar do uso e abuso que tem havido em relação às expressões reflexão e diálogo, esvaziando-as de seu significado mais profundo, não nos furtaremos de utilizá-las à exaustão, se necessário, por entendê-las fundadoras do processo educativo, quando tomadas na sua significação mais viva. A reflexão nasce do espanto com a vida, do incômodo com uma existência incompleta e do desejo mais profundo do nosso eu de superar problemas. Nasce de uma indignação que nos mobiliza para a reflexão-ação. É, portanto, geradora do próprio conhecimento, tomado em seu processo de construção.

No percurso formativo, o mundo jamais é tomado como uma evidência. O exercício de formação se serve do genuíno diálogo, que supõe uma interlocução verdadeira com a expressão do outro, a do não-eu. Nesse percurso formativo, o conhecimento e a reflexão são meios, e o devir da humanidade é fim.

Voltemos à questão-título, que originou este artigo: O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem?

Embora saibamos do alto teor utópico que a concepção de escola aqui adotada evidencia, consideramos que pensá-la como formadora seja essencial. Não há ingenuidade, ou ignorância do caráter histórico discriminatório da instituição escolar, mas o desejo de evidenciar, nas contradições da sua proposta originária, a sua possibilidade emancipatória.

Para além da necessária habilitação técnico-científica dos jovens, o que está em pauta, quando se fala dos objetivos da educação para eles, é a formação da pessoa. Trata-se de um horizonte de que não podemos abrir mão, ainda que reconheçamos os obstáculos colocados pela nossa dura realidade.

A construção de sujeitos autônomos e conscientemente históricos – eis o que desejamos para o futuro dos nossos jovens – envolverá também um necessário processo de aquisição/reflexão acerca de valores.

CONTINUA…
*Branca Jurema Ponce é professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atua no Programa de Pós-graduação Educação: Currículo.

Fonte: Matéria publicada na Revista Onda Jovem Edição 15 – Junho de 2009 – Projeto de Futuro. Construindo pessoas.



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