O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem? Parte final

02/May/11 O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem? Parte final

*Por Branca Jurema Ponce

Formação de valores

Afirmamos, na primeira parte deste artigo, que a instituição escolar tem sido concebida como espaço privilegiado de construção de cidadania. Ora, não ser indiferente é fundamental ao exercício da cidadania, e isso não emana de um gesto inato. Por conseguinte refletir e posicionar-se são habilidades que precisam ser adquiridas, são passíveis de aprendizagem. Assim, a educação, incluindo-se a escolar, está necessariamente implicada na construção de valores.

Do ponto de vista antropológico, nascemos e vivemos no interior do mundo cultural, que é / contém uma rede de significações que nos antecede, de tal forma que os nossos comportamentos, que não são naturais, sofrem uma modelagem imposta por esse mundo. Incorporamos costumes e valores previamente estabelecidos e a eles vamos acrescentar, durante nossas vidas, aqueles formados com base em novas informações e reflexões. Somos, portanto, bons imitadores uns dos outros (assim como bons inventores), porque continuamos a criar – a nós e ao próprio mundo – a partir das imitações que fazemos ao incorporarmos costumes e valores vigentes. Numa boa hipótese, não aceitaremos de modo passivo os valores impostos durante todo o tempo, mas os incorporaremos e refletiremos constantemente sobre a verdade contida neles, para revê-los, ou reafirmá-los. Os valores são adquiridos e podem ser transformados.

Qual é a responsabilidade da escola na formação dos valores dos jovens?
Preliminarmente, é preciso afirmar que a escola não é a única responsável pela formação ética dos jovens, embora seja a mais cobrada socialmente por isso. A força da sociedade consumista, as mídias, a falta de oportunidades para que o jovem se desenvolva pessoal e intelectualmente, a ausência de políticas públicas que o contemplem, têm deixado o jovem solitário na formação de seus valores. Na sua imaturidade, de modo não reflexivo, ele tende a reproduzir os valores dominantes da sociedade em que vive, muitas vezes sem maquiar o processo, como fazem os mais maduros.

Do ponto de vista ético e de comportamento social, a nova ordem socioeconômica estimula o consumismo e o individualismo, que vai a limites extremos, gerando instabilidade constante e agressividade. O segmento jovem é dos mais atingidos por esse processo. A vida coletiva e a cooperação deixam de ser valorizadas, cedendo lugar à competição desenfreada e à luta individual, seja ela por sobrevivência, seja pelo sucesso a qualquer custo.

A naturalização deste processo gera, contraditoriamente, uma busca equivocada pelo prazer imediato, efêmero, e por valores morais conservadores, estáveis. Temos aí uma articulação perigosa de valores, que coloca lado a lado um individualismo exacerbado e uma moral conservadora. Nesse contexto, o discurso moralista conservador é retomado com caráter de urgência. Na escola, a discussão sobre a necessidade da educação moral volta à pauta como antídoto à indisciplina e à violência; reduzida, no entanto, em sua dimensão e importância. Cobra-se, dos professores, mais autoridade, entendida como mão forte para disciplinar os alunos. De modo equivocado, clama-se por um disciplinamento dos jovens, vinculando-se esse processo à idéia de construção de valores e de cidadania.

Vale aqui uma lembrança: o ato moral deve ser composto não apenas pela obrigação social, ou pela obediência às regras, mas também pela escolha do indivíduo que o realiza. Caso isso não ocorra, ele perderá o seu conteúdo fundamental. A adesão, ou a rejeição à regra constituem parte essencial da ação moral e pressupõem discernimento para optar. Saber escolher entre o que se considera certo e o que se considera errado, para decidir pela adesão, ou transgressão às determinações sociais, é uma aprendizagem necessária. É um exercício da autonomia, entendida como uma segurança pessoal construída dia a dia, por meio do aprendizado de um pensar responsável e reflexivo, que pressupõe um repertório cultural constantemente revisto.

Nesse sentido, se queremos um jovem que venha a constituir-se em adulto autônomo, a atitude educativa desejável é a do estímulo ao discernimento e à opção. Oferecer ferramentas que o levem a saber discernir e optar é uma contribuição importante da escola, especialmente do ensino médio, para a formação dos jovens.

Mais uma vez é preciso afirmar que não se trata, por conseguinte, apenas de instruir os alunos para a aquisição de determinada habilidade, nem de levá-los a se apropriarem de um acervo de conhecimentos, mas de instaurar e desenvolver reflexões de modo a possibilitar o amadurecimento de ações que não sejam frutos apenas de imediatismos.

A resposta à questão inicial (O que a escola tem a oferecer para a formação do jovem?) poderá, portanto, depender: 1. do que entendemos por escola; 2. do que entendemos por formação; e 3. do que desejamos para o futuro de nosso jovem.

O que desejamos é: 1. um jovem que, na vida adulta, seja autogovernante de sua vida em coletividade; 2. uma formação que o prepare para viver e (re)criar a vida com dignidade; e 3. uma escola que valorize o conhecimento como estratégia de existência; que seja um espaço de convívio democrático e solidário; e que, por meio de seus educadores, ajude o jovem na construção de sua autonomia.

Nossa resposta não contempla especificamente o jovem do ponto de vista da sua empregabilidade, mas não descarta essa necessidade. O projeto de vida de um jovem não pode se restringir a ter um emprego, seus horizontes devem ampliar-se. Para além do emprego, ele precisa preparar-se para a vida (inclusive para o trabalho, que é mais amplo que o emprego), a fim de não limitar o seu olhar a um perímetro tão estreito.

*Branca Jurema Ponce é professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atua no Programa de Pós-graduação Educação: Currículo.

Fonte: Matéria publicada na Revista Onda Jovem Edição 15 – Junho de 2009 – Projeto de Futuro. Construindo pessoas.



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